Ao relembrar como aceitou o convite para atuar na região, o chef resgatou um dos episódios mais marcantes de sua trajetória. No relato, ele explica por que enxerga sua presença no território como uma missão que ultrapassa a gastronomia, conectando seu trabalho a um propósito de conscientização, impacto e valorização histórica.
De cenário de escravidão a polo gastronômico: João Diamante se emociona ao relatar transformação da Pequena África, no Rio — Foto: Receitas
De cenário de escravidão a polo gastronômico: João Diamante se emociona ao relatar transformação da Pequena África, no Rio — Foto: Receitas
Uma viagem, um novo olhar
O relato parte de uma experiência fora do país. Durante uma viagem ao Benin, na África Ocidental, Diamante visitou a chamada Porta do Não Retorno, espaço de onde partiram africanos escravizados para diferentes partes do mundo. Ele traçou um paralelo direto com o território no Rio:
“Existe um lugar lá no Benin chamado ‘A Porta do Não Retorno’. Foi o lugar que mandou mais pessoas africanas escravizadas para o mundo. E existe um lugar no Rio de Janeiro que se chama ‘Cais do Valongo’, foi o lugar que mais recebeu pessoas escravizadas do mundo”, ele ressalta.
Segundo o chef, durante a viagem, a percepção inicial era de que encontraria um ambiente marcado apenas pela memória da dor. A experiência, no entanto, foi diferente do esperado. Ele relatou conversas com moradores da região que mudaram sua visão sobre o papel desses espaços hoje.
“A gente não consegue mudar o passado, é impossível. A gente está aqui no presente, resistindo para conseguir ressignificar o que aconteceu no passado”, disse, ao reproduzir o que ouviu no local.
A observação do cotidiano da região da Porta do Não Retorno deu ao chef um novo propósito. “Você vê o governo fazendo ciclovias, pavimentando, você vê os restaurantes cheios, você vê a parte turística, você vê as famílias vindo fazer piquenique aqui”, ele recorda. Foi nesse contexto que ele afirma ter tomado a decisão de atuar na Pequena África.
“O que eu acho que você deve fazer é a mesma coisa que a gente está fazendo aqui […] através da tua gastronomia e da tua influência, mudar aquele território”, relatou, sobre o que ouviu de moradores no Benin.
João Diamante relembra viagem para o Benin que o inspirou a ressignificar o futuro
Comida e ressignificação
De volta ao Rio de Janeiro, o chef aceitou o convite de Raphael Vidal, e passou a atuar no restaurante Dois de Fevereiro, entendendo que o público não chegaria ao local necessariamente pela história da Pequena África: “As pessoas não vão lá conhecer a nossa história, porque muitas pessoas morreram, porque muitas pessoas sangraram”, afirma, recordando o cenário de escravidão do local.
Em vez disso, ele reconhece outro tipo de motivação que conquista seus clientes: “Vou lá porque tem o restaurante do João Diamante’”, explica. É a partir desse movimento que o chef constrói uma estratégia de aproximação:
“A partir daí que eu pego essas pessoas, porque o restaurante está cheio e elas conseguem visitar esse lugar, fomentar esse lugar, a cultura, a arte, a gastronomia e tudo que aquele lugar perpetua”, relata emocionado, sobre sua missão na Pequena África.
João Diamante conta aceitou comandar o restaurante Dois de Fevereiro na Pequena África
Neste sentido, João reforça que o acesso inicial pela gastronomia se transforma em oportunidade de contato com a história e com a produção cultural da região. O chef frisa que o espaço carrega um significado que vai além da atividade comercial. “É um lugar de resistência”, se orgulha o empreendedor.
“Essa é a missão do João Diamante no mundo, de utilizar a gastronomia pra educar pra conscientizar e pra impactar”, sintetiza o chef.
Gastronomia e impacto
Antes de aceitar o comando do Dois de Fevereiro, Diamante destaca que o trabalho na região já vinha sendo conduzido por outros moradores locais, especialmente mulheres: “Muitas pessoas já começaram a fazer um trabalho incrível naquela região, sobretudo as mulheres […] foram as primeiras empreendedoras gastronômicas”, ele ressalta, sobre a Pequena África.
Ao descrever sua participação no projeto, ele reforça o papel da gastronomia como meio de atuação: “Hoje eu utilizo a gastronomia como agente de transformação, que é para ajudar as pessoas”. E define o princípio que orienta sua atuação na Pequena África: “Essa é a missão do João Diamante no mundo: utilizar a gastronomia para educar pra conscientizar e pra impactar”, finaliza.



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