Para explicar como eles agem, quais são os principais benefícios, os riscos nutricionais, os efeitos colaterais e para quem o tratamento é indicado, consultamos Juliana Saldanha, nutricionista da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), e com o dr. Paulo Augusto Miranda, endocrinologista, ex-presidente e atual coordenador da Comissão Internacional da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
Caneta emagrecedora: especialistas explicam mudanças no apetite e na relação com a comida — Foto: Reprodução da Internet/Unsplash
Caneta emagrecedora: especialistas explicam mudanças no apetite e na relação com a comida — Foto: Reprodução da Internet/Unsplash
Como as canetas emagrecedoras agem no organismo
Segundo Juliana Saldanha, de maneira geral, essas medicações agem imitando hormônios intestinais chamados incretinas (GLP-1 e GIP). Esses hormônios, em condições normais, são sintetizados pelo intestino após comermos e enviam para o cérebro e para o sistema digestivo sinais que controlam o apetite.
O Dr. Paulo Augusto Miranda detalha que os agonistas de GLP-1 atuam em um receptor de uma substância produzida no intestino que participa da regulação do apetite, do esvaziamento gástrico e da secreção de insulina, além de outras funções corporais. O principal efeito sobre o controle do apetite é central, no cérebro: atuam sobre centros da fome e centros relacionados ao sistema de recompensa, reduzindo o apetite. Segundo os estudos, isso leva, em média, a uma redução do total calórico ingerido em torno de 30%.
Ele explica ainda que o efeito sobre o esvaziamento gástrico é direto do GLP-1 sobre a mobilidade gástrica, mas os efeitos colaterais mais comuns, como náusea, não dependem desse tempo de esvaziamento: o efeito sobre a náusea também é central, no sistema nervoso central.
Mudança na relação com a comida
Para Juliana Saldanha, essas medicações reduzem significativamente o apetite, e essa redução acentuada acaba por mudar a forma com que o indivíduo se relaciona com a comida, podendo inclusive levar a transtornos alimentares. Hoje, usa-se o termo agonorexia para descrever essa mudança na relação com a comida gerada pelo uso dos agonistas incretínicos.
Sobre se os pacientes perdem o prazer de comer ou apenas o apetite excessivo, a nutricionista explica que isso varia muito de acordo com o tipo de resposta individual ao tratamento e também com a dose utilizada. Em alguns pacientes, observa-se apenas a redução da compulsão alimentar e do comer excessivo; em outros, há redução do paladar e, consequentemente, do prazer em comer.
Juliana observa uma redução generalizada do apetite, mas também mudanças específicas e um desenvolvimento de paladar mais restritivo: em particular, um efeito de redução do apetite por alimentos que antes geravam compulsão, como doces ou massas, possivelmente associado à redução do prazer em comer.
Riscos nutricionais para quem faz uso das canetas emagrecedoras
Com a redução drástica da quantidade de comida, Juliana aponta que o maior risco é o desenvolvimento de uma desnutrição energético-proteica, com perda acentuada de massa muscular, agravada também por deficiências de micronutrientes.
Para lidar com isso, ela recomenda fracionar mais a dieta, com refeições pequenas e mais fáceis de ingerir e digerir. De preferência, essas refeições devem contemplar o máximo de grupos de alimentos para completar o aporte nutricional de acordo com a demanda individual do paciente. É fundamental consumir alimentos fontes de proteína em todas as refeições do dia, a fim de garantir a manutenção da massa muscular durante o emagrecimento.
Indicação e uso indevido desses medicamentos
Segundo Juliana Saldanha, atualmente as principais indicações desse tipo de medicamento são o diagnóstico clínico de diabetes mellitus e obesidade. Sobre o Brasil ter se tornado um dos maiores consumidores desses medicamentos, ela pondera: “Existem os dois lados dessa moeda. Temos, por um lado, um aumento expressivo na prevalência de obesidade no Brasil e no mundo vista no Atlas Mundial da Obesidade publicado em abril deste ano, e com isso um aumento da necessidade real de tratamento. Por outro lado, temos também um uso indevido por pessoas que não tem indicação clínica, mas que querem usar as canetas para atender a padrões estéticos questionáveis de magreza”.
Efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras
Segundo o dr. Paulo Augusto Miranda, os efeitos colaterais mais reportados na prática clínica estão relacionados ao sistema gastrointestinal: sensação de empachamento, de barriga cheia, náusea, eventualmente vômito e alteração da função intestinal. A ocorrência de diarreia é menos comum, sendo a constipação um pouco mais frequente.
Ele explica que geralmente esses efeitos são manuseáveis e toleráveis, mas eventualmente podem interferir negativamente na qualidade de vida da pessoa, a ponto de tornar o uso da medicação insustentável, por isso a importância do acompanhamento médico contínuo, da boa instrução e orientação.
Ele destaca ainda um ponto de atenção: algumas pessoas, ao iniciarem o uso desse grupo de medicações, sentem menos sede e podem reduzir o consumo de água, seja por estarem nauseadas no início do tratamento ou por se sentirem com o estômago cheio e esquecerem de se hidratar. Por isso, é importante a recomendação de uma boa hidratação, para que isso não impacte negativamente a saúde da pessoa.
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