No primeiro episódio, Ivan conversa com João Diamante e Adriana Veloso, dois nomes que representam trajetórias bem diferentes, mas atravessadas pelo mesmo fio condutor: a cozinha como ferramenta de transformação.
“A maior parte dos negócios que dão certo, que fazem sucesso no mundo, seja qual for o negócio, precisa nascer de um tripé: ‘eu gosto daquilo que faço? Eu sei fazer aquilo? E a terceira, a mais importante: tem gente que vai pagar por isso?’”, indaga Ivan ao iniciar o bate‑papo.
Na estreia do ‘Me Dá a Receita?’, João Diamante e Adriana Veloso refletem sobre cozinha e impacto social — Foto: Receitas
Na estreia do ‘Me Dá a Receita?’, João Diamante e Adriana Veloso refletem sobre cozinha e impacto social — Foto: Receitas
João Diamante: o ponto de virada
João Diamante reforça que sua trajetória nunca foi apenas sobre cozinhar, mas sobre resistir, aprender e transformar. Ao relembrar a infância na periferia do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro, e a formação em cozinhas de alta pressão, como da Marinha do Brasil e de Alain Ducasse, o chef aponta que a casca criada ao longo da vida foi determinante para não desistir.
“Se minha experiência de vida fosse outra, talvez eu tivesse desistido”, afirma, ao lembrar do período em que passou na França, onde muitos colegas abandonaram o estágio.
Essa vivência, segundo ele, moldou não só o profissional, mas o homem que passou a entender a cozinha como espaço político e social. “A gente não escolhe a cozinha, ela escolhe a gente”, diz João, ao explicar que seu desejo inicial era trabalhar diretamente com pessoas, em áreas como assistência social ou psicologia. Foi a gastronomia, no entanto, que se apresentou como a linguagem capaz de unir técnica, afeto e impacto real.
“Eu dei a volta ao mundo para voltar a trabalhar com pessoas usando a gastronomia”, analisa João Diamante.
Foi dentro de casa, a partir da escuta de sua família e equipe de trabalho, que veio o ponto de virada que redefiniu sua atuação profissional. “No momento em que minha equipe conseguiu me fazer libertar, aí veio a receita do sucesso”, recorda o chef, ao explicar que, até então, só conseguia se enxergar atuando estritamente dentro da cozinha, comandando apenas aquele ambiente.
O estalo veio acompanhado de um aviso: “Você também é cozinheiro, você não vai deixar de ser cozinheiro. Mas você também é isso, e a gente pode rentabilizar tudo isso”, explica João, relembrando palavras de amigos e da esposa, Stéphanie Parreira. Hoje, além de chef, João é empreendedor, educador gastronômico, palestrante, transita no mundo da moda e tornou-se um importante agente de impacto cultural.
Essa visão se consolida quando João fala sobre o projeto Diamantes na Cozinha, que define como seu maior prêmio. “O maior reconhecimento não é prêmio, é impacto”, afirma. Para ele, usar a notoriedade conquistada na gastronomia para abrir caminhos e gerar oportunidades é parte de sua missão. “O João Diamante é pequeno, mas se eu conseguir deixar uma fagulha em alguém, já valeu”, se emociona.
Porém, João reforça que seus projetos seguem conectados a uma visão ampliada da gastronomia. Essa perspectiva se materializa no restaurante Dois de Fevereiro, seu empreendimento mais recente, onde ele consolida a ideia de que cozinhar pode ser, ao mesmo tempo, ofício, linguagem e plataforma de diálogo.
“A gastronomia é a ferramenta que eu encontrei para educar, conscientizar e impactar”, resume João.
João Diamante é convidado do episódio de estreia do videocast ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas
João Diamante é convidado do episódio de estreia do videocast ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas
Adriana Veloso: a saudade que virou oportunidade
Adriana Veloso faz seus relatos a partir da memória afetiva, mas também da sobrevivência. Criada na periferia de Belém, filha de mãe solo, ela narra uma trajetória marcada por trabalho precoce, escassez de recursos e aprendizados impostos pela realidade. “Minha mãe criou cinco filhos lavando roupa pra fora”, conta a chef.
Já no Rio de Janeiro, a gastronomia surge inicialmente como curiosidade. Antes de comandar o Pescados na Brasa, hoje referência da comida paraense na Cidade Maravilhosa, Adriana foi balconista de medicamentos, atendente, caixa e gerente de restaurante.
“Eu sempre ficava observando os cozinheiros, perguntando, querendo entender tudo o que eles faziam”, recorda Adriana.
Além da gastronomia, Adriana sempre teve vontade de entender como a comida podia reunir pessoas e criar vínculos. A virada acontece quando ela decide vender peixe assado em um estacionamento, usando a própria cozinha de casa como base, sem capital, sem estrutura e com muito improviso. “O cheiro de peixe ficou um mês na minha casa inteira, na geladeira, em tudo. Eu limpava todo dia e não saía”, relembra. Ainda assim, ela seguiu.
Adriana fala de decisões difíceis, da falta de dinheiro e da necessidade de transformar a saudade de casa em uma oportunidade concreta:
“Eu sou da periferia de Belém, então é muito comum a gente comer peixe assado de brasa lá. E o que eu sentia mais falta era disso. E aí eu falei, vou juntar útil ao agradável. Vou montar um restaurante de peixe”, explica, sobre como tudo começou.
Hoje, à frente de dois restaurantes, um no Riachuelo, localizado na Zona Norte do Rio, e outro no Leblon, na Zona Sul, Adriana mantém uma visão prática sobre empreendedorismo. Para ela, reconhecimento não vem em forma de troféu. “Prêmio não é dinheiro, prêmio não é cliente, é só status”, afirma, ao defender que o verdadeiro termômetro de um negócio está na casa cheia, na equipe respeitada e na relação honesta com o público.
“Eu abri um restaurante pra matar a saudade de casa, mas quem me sustentou desde o começo foram os cariocas”, diz Adriana.
De acordo com a empreendedora, foram eles os primeiros clientes, antes mesmo da chegada maciça de conterrâneos do Norte, os responsáveis por transformar o Pescados na Brasa em um espaço de encontro, memória e pertencimento.
Adriana Veloso é convidada do videocast ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas
Adriana Veloso é convidada do videocast ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas
Lucro ou lenda: o que realmente funciona no empreendedorismo?
Para encerrar o episódio, provocados por Ivan Achcar com frases comuns do imaginário do sucesso, João Diamante e Adriana Veloso desmistificam ideias consolidadas a partir da vivência, na prática. Para João, a noção de que o empreendedor é “seu próprio patrão” e, portanto, mais livre, é uma ilusão. “Você fica preso pro resto da vida”, afirma, ao explicar que quem empreende passa a responder a vários chefes ao mesmo tempo: clientes, sócios, equipe e o próprio negócio.
Adriana concorda e complementa: “Você até faz seu horário, mas trabalha muito mais do que quando tinha carteira assinada”, pontua, ao reforçar que a autonomia vem acompanhada de responsabilidades constantes e decisões diárias que não podem ser adiadas. Os dois, porém, destacam que o trabalho pode ser proporcional ao lucro que ganham como empreendedores:
“Você vai trabalhar mais, o risco é maior, mas a rentabilidade é maior. Então é exatamente isso. Empreender não quer dizer que seja bom ou ruim, só que você vai trabalhar muito mais. E essa coisa de não ter chefe é o contrário. Você tem um monte de chefe e você é mais exigente com você mesmo na sua entrega”, pondera João Diamante.
E o cliente tem sempre razão? A pergunta mais polêmica trouxe unanimidade absoluta nas respostas dos dois convidados.
“Isso vem de raiz, não é de agora. O Brasil foi construído nos privilégios, foi construído na escravidão […]. O cara chega no restaurante e entende aquilo não como serviço, mas como subserviência. E é por isso que, no Brasil, muita gente diz: ‘eu não quero ser garçom, eu não quero servir’. Mas nos Estados Unidos quer, na Europa quer, pela valorização do serviço, da mão de obra”, observa João Diamante.
“O cliente nem sempre tem razão. Ele perde a razão no momento que ele trata mal o teu colaborador, no momento que ele acha que ele pode, que ele é o dono da razão sem ter essa razão. Então, é lenda”, complementa Adriana Veloso.
Já sobre prêmios na área de gastronomia, que podem fazer com que estabelecimentos fiquem muito conhecidos, o alerta é claro: “Tem muita gente que acaba caindo nesse erro”, diz João. Para ambos, o que realmente importa é o reconhecimento sustentado no tempo, aquele que nasce do impacto real, da continuidade e da relação honesta com as pessoas.
Os dois também são convidados a falar sobre fracasso e reconhecimento. Para a dupla, errar não encerra trajetórias: ao contrário, gera mais aprendizados. “Fracasso não é o fim do jogo, é o começo”, afirma João Diamante, ao dizer que só chegou onde está porque errou mais do que acertou ao longo do caminho. Adriana reforça a lógica:
“Tudo que começa de cima tende a cair. Tudo que começa de baixo tende a subir. Então, se você começou de baixo, em algum momento você fracassou, você tem que começar a pensar e rever o porquê do fracasso. Onde que você errou, onde é que você tem que começar a melhorar. E aí, quando você pensa, aí você começa a melhorar e aí começa a fluir”, finaliza Adriana Veloso.
João Diamante e Adriana Veloso falam sobre empreendedorismo no ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas
João Diamante e Adriana Veloso falam sobre empreendedorismo no ‘Me Dá a Receita?’ — Foto: Receitas



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